M. Yourcenar

 


Maria Magdalena por M. Yourcenar

MARIA MADALENA OU A SALVAÇÃO

 

Não cairei. Atingi o centro. Escuto as pulsações de um obscuro relógio divino através do delicado invólucro carnal da vida plena de sangue, de inquietações e suspiros.

Estou próxima da origem misteriosa das coisas como, à noite, estamos algumas vezes muito próximos de um coração.

Meu nome é Maria. Mas todos me chamam de Maria Madalena. Madalena é o nome de minha aldeia, um pequeno vilarejo onde minha mãe possuía terras e meu pai cultivava vinhas. Nasci em Magdala. Ao meio-dia, minha irmã Marta distribuía pequenos jarros de cerveja aos trabalhadores da fazenda, mas eu ia até eles de mãos vazias. Sorviam o meu sorriso enquanto seus olhos me examinavam como um fruto quase sazonado cujo sabor dependia apenas de um pouco mais de sol. Meus olhos eram dois animais selvagens aprisionados na rede das minhas pestanas. Meus lábios quase negros assemelhavam-se a uma sanguessuga plena de sangue. O pombal regurgitava de pombos, o depósito de pão estava abarrotado e a arca continuava cheia de moedas com a efígie de César. Marta cansava sua vista bordando as iniciais de João sobre meu enxoval de noiva. A mãe de João possuía pesqueiras; o pai de João possuía vinhedos.

 

...

 

Quando te vejo tudo se torna límpido. Aceito até mesmo o sofrimento.

E Partes? Partes? retenho-te... - e tOrna ate mesmo o sofrimento.

E partes? Partes?... Não, não te vás retenho-te... Deixas em minhas mãos tua alma como um manto.

És o meu próximo? Não, tu estás próxima. Lastimo-te como a mim mesma.

Conheci jovens vindos do mundo dos deuses. Seus gestos lembravam as trajetórias dos astros. Ninguém se admirava da insensibilidade do seu duro coração de porfírio.

Quando estendiam a mão, a avidez desses estranhos mendigos era ainda um vício dos deuses. Como todos os deuses, eles deixavam transparecer uma inquietante semelhança com os lobos, chacais e víboras: guilhotinados, teriam assumido o aspecto pálido de mármores decapitados. As mulheres e as moças provêm do mundo das Madonas: as piores amamentam a esperança como uma criança prometida às crucificações futuras. Alguns dos meus amigos provêm do mundo dos sábios, de uma espécie de índia ou de China interior: o universo ao seu redor dissipa-se em fumaça. Perto desses lagos frios onde se reflete a imagem das coisas, os pesadelos vagueiam como tigres domesticados. Amor, meu ídolo inflexível, teus braços estendidos para mim parecem vértebras de asas. Fiz de ti a minha Virtude; aceito ver em ti uma Dominação e um Poderio. Entrego-me a esse terrível avião impulsionado por um coração. À noite, nos pardieiros por onde nos arrastamos juntas, teu corpo nu assemelha-se a um Anjo encarregado de velar por tua alma.

Meu Deus, entrego meucorpo em vós.

Diz-se: louco de alegria. Dever-se-ia dizer: sábio de dor.

Possuir é a mesma coisa que conhecer: as escrituras têm sempre razão. O amor é feiticeiro: conhece os segredos; é feiticeiro: conhece as fontes. A indiferença é vesga; o ódio é cego; ambos oscilam lado a lado sobre o fosso do desprezo. A indiferença ignora; o amor sabe; decifra a carne.

É preciso possuir um ser para ter a ocasião de contemplá-lo nu. Foi-me preciso amar-te para compreender que a mais medíocre ou a pior das criaturas humanas é digna de inspirar o eterno sacrifício de Deus.

Há seis dias, há seis meses... São passados seis anos, passar-se-ão seis séculos... Ah! Morrer para fazer parar o Tempo...


Livro completo na biblioteca: FOGOS, 1983  

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