Cuidar a Infância: tema do momento.

 


Cuidar a Infância: tema do momento.

Acompanhe na íntegra o podcast/rádio de hoje:

https://www.pachainfoteca.com/radio

 

Poemas que passamos no programa hoje:


"No descomeço era o verbo

Só depois é que veio o delírio do verbo.

O delírio do verbo estava no começo, lá onde a criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.

A criança não sabe que o verbo escutar não funciona para cor, mas para som.

Então se a criança muda a função do verbo, ele delira.

E pois.

Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer nascimentos –

O verbo tem que pegar delírio”

Manoel de Barros

 

“Na roda do mundo

lá vai o menino.

O mundo é tão grande

e os homens tão sós.

De pena, o menino

começa a cantar.

(Cantigas afastam

as coisas escuras.)

Mãos dadas aos homens,

lá vai o menino,

na roda da vida

rodando e cantando.

A seu lado, há muitos

que cantam também:

cantigas de escárnio

e de maldizer.

Mas como ele sabe

que os homens, embora

se façam de fortes,

se façam de grandes,

no fundo carecem

de aurora e de infância

— então ele canta

cantigas de roda

e às vezes inventa

algumas — mas sempre

de amor ou

de amigo.

Cantigas que tornem

a vida mais doce

e mais brando o peso

das sombras que o tempo

derrama, derrama

na fronte dos homens.

Na roda do mundo

lá vai o menino,

rodando e cantando

seu canto de infância.

Pois sabe que os homens

embora se façam

de graves, de fortes,

no fundo carecem

de claras cantigas

— senão ficam ocos,

senão endoidecem.

E então ele segue

cantando de bosques,

de rosas e de anjos,

de anéis e cirandas,

de nuvens e pássaros,

de sanchas senhoras

cobertas de prata,

de barcas celestes

caídas no mar.

Na roda do mundo,

mãos dadas aos homens,

lá vai o menino

rodando e cantando

cantigas que façam

o mundo mais manso

cantigas que façam

a vida mais justa,

cantigas que façam

os homens mais crianças.”

Thiago de Mello

 

“As coisas que não têm nome são mais pronunciadas por crianças”

 Manoel de Barros.

 

"Para entrar em estado de árvore é preciso

partir de um torpor animal de lagarto às

3 horas da tarde, no mês de agosto.

Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer

em nossa boca.

Sofreremos alguma decomposição lírica até

o mato sair na voz .

Hoje eu desenho o cheiro das árvores.

Manoel de Barros


"Como a explosão duma supernova ou a eclosão de uma semente, toda a gente nasce criança”

Capaz de fissurar as normatividades

por inaugurar posturas de improviso perante o imprevisto,

a infância reina entre a anarquia e o receio. A infância diz sim! E inventa porvires, devires, aberturas.

Revista Gratuita


Walter Benjamin escreveu:

‘Que as coisas continuem como antes: eis a catástrofe.’ A infância é promessa de começo, testemunho do eterno retorno do novo e, portanto, de adiamento da catástrofe. Talvez seja por isto que todo poder conservador busque domesticar a infância. Para manter um estado de coisas é preciso, injustamente, conter o indeterminado. Todavia, isto não é senão um modo grotesco de fracassar. Sejam quais forem as forças, a infância resiste: condição e promessa do vivo, ela afirma a persistência inegociável da mutação.”

 

 

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