Um Canto por Pachamama
Um Canto por Pachamama
“Eres uno y todos, comiendo el alimento de todos, en la fiesta del almuerzo tranquilo; la Mazamorra dulce que es el pan de los pobres, y leche de las madres con los senos vacíos. Cuando la comes sientes que la tierra es tu madre, más que la anciana triste que espera en el camino tu regreso del campo, la madre de tu madre, - su cara es una piedra trabajada por siglos” Antonio Esteban Aguero O folclore latino-americano conseguiu guardar em tonadas, cuecas, zambas, landós, milongas, polkas, huaynos, choros, em contos e costumes, toda uma maneira de viver, que desprezada pela invasão colonizadora, resguardou em suas entrelinhas a fecundidade de Abya Yala. A palavra oral, perdendo mil vezes, venceu. Perdurou em um conjunto de práticas espontâneas, autênticas e vitais que permitiram que uma identidade se mantivesse viva em nosso continente. Como na década de 80, quando Mercedes e Heredia gravaram o álbum conceitual Taki Ongoy, que resgatou a rebelião homônima do século XVI, revivendo pela música os anseios de liberação social, dignidade pré-colombiana, e a fortaleza das raízes quéchua, aymara, alguns dos povos originários da América profunda. “Ya nos quitaron La tierra y el sol Nuestra riqueza y la identidad Solo les falta prohibirnos llorar Para arrancarnos, Hasta el corazón. Grita conmigo Grita taky ongoy Que nuestra raza Reviva en tu voz”. Taki Ongoy, Victor Heredia Hoje se faz mais que necessário esse “descomplicar-se”, chamado por muitos de "decolonização", mas as pretensões do folclore parecem estar longe de brilhar nas academias: segue dedicado ao sentido anônimo de sempre: o cultivo do viver sencillo de uma chacrita (pequena fazenda), a transmissão das receitas da velha abuela, o compartir de um jeito de unir palha ao barro e criar uma casa entre cerros. O folclore mantém sua vocação de cotidiano, abarcando toda uma gama de informalidades de nossa América Latina, desde o jeito de fazer dormir a um bebê, as histórias místicas e populares, a maneira de nomear uma batata, até o carinho entre vizinhos expresso nas minkas, ou mutirões, para os brasileiros. Talvez pela sua cotidianidade, essa expressão da identidade, da arte e da cultura popular adquire um caráter que transcende o que se pensaria ser seu próprio campo, faz política, filosofia e espiritualidade com a mesma naturalidade com que um violeiro faz rimas. Está na maneira de plantar sem veneno, no mate para conversar com fluidez, nas mesas humildes com o milho da lavoura, na mazzamorra, no cuscuz, no forno de barro, no cuidado com as crianças em ayllu (família estendida), no olhar da benzedeira, na “cura de sustos”, no agradecer da comida, nas límpias de ervas... Todas essas maneiras de falar e pensar o mundo, ignoradas pelos poderosos, sobreviveram carregando um tesouro que hoje podemos nos debruçar para mais que estudar e classificar – deixar-nos surpreender e contagiar! Essa linguagem amorosa da América Profunda preservou uma fonte de conhecimento para lidarmos com os tempos atuais, em que o tecnicismo encontra sua derrocada. Um fluxo da vida selvagem sobreviveu para contar sua história e essa escola não tem muros. O mito da semente – que encarnou Tupac Amaru, prestes a ser esquartejado em Cusco, afirmando “Voltarei e serei milhões”, fez menção a essa maneira de guardar a rebelião como semente, como um canto vindouro. “Cantando al sol como la cigarra, después de un año bajo la tierra...” Mercedes Sosa Com seu canto, Violeta Parra percorreu o Chile buscando os poetas anônimos e dedicou sua vida a esse intento de recolher o brilho desse livro de pedra e sol. Os frutos formosos dessa identidade até então quase invisível passa a compor o cancioneiro, ou melhor dito, o cânone do que hoje se chama música popular latino-americana.

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