Especial: a Ditadura no Brasil
Um resumo sobre o golpe em Brasil realizado pelo canal argentino
Marcos Arruda
Marcos, eu queria saber o que eu faço pra aguentar a tortura? Essa pergunta me fez teorizar o que eu tinha vivido até aquele momento. E eu falei pra ele: primeira coisa, se você não tiver um amor no coração e não na cabeça; um amor pelos teus companheiros operários, pela classe trabalhadora, pelas pessoas; não pela classe abstrata, mas pelas pessoas humanas, que você conhece, admira, respeita e ama. Se você não tiver esse amor, vai ser difícil aguentar. Porque o compromisso racional é muito fraco. Vêm à tona um monte de tentações racionalizantes na hora: “se você sobreviver, você vai continuar na luta, então faça tudo pra sobreviver, não importa o quê”. Isso quer dizer: entregar outros. E aí é que deve vir um contraponto que vem daqui debaixo, do coração, que diz assim: você não pode entregar ninguém. E se você morrer, outros vão continuar. É mentira do torturador que "a tua guerra acabou". Não há "a tua guerra". A guerra não é minha! É do povo brasileiro! É do povo do mundo contra a opressão e pela liberdade!

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.


Eu não. No xadrez de Gil estavam alguns nomes da cultura brasileira, como o poeta Ferreira Gular, o escritor Antônio Calado, o jornalista e romancista Paulo Francis. Geraldo Vandré era procurado. Os militares tinham um ódio violento dele por causa daquela canção Pra não dizer que não falei das flores, que falava de "soldados armados, amados ou não". Eu estava com líderes estudantis, rapazes vinculados à Igreja Católica, mas de esquerda. O Gil estava numa cela melhor porque tinha diploma, ele podia até ter violão. O sofrimento era grande. A minha mulher [Dedé Gadelha] não sabia onde eu estava. Ninguém da minha família sabia. Eu fui sequestrado, estava desaparecido. E já fazia um mês.
Vozes femininas reivindicando uma outra história
Milagre dos Peixes de Milton Nascimento
Em 1973, Milton Nascimento estava gravando seu disco MILAGRE DOS PEIXES, quando recebeu notificação da Censura Federal a respeito da interdição de três faixas: “Cadê”, “Hoje É Dia de El Rey” e “Os Escravos de Jó”. A resistência veio na forma de gravar as canções apenas com sua parte instrumental. Em vez das letras, Milton faria vocalises, algo que sempre fez muito bem. Das três, a gravação de “Escravos” é a mais arrebatadora, com participação de Clementina de Jesus em meio a um coro de vozes que apenas canta a melodia. O último verso foi cantado pela veterana sambista de modo quase ininteligível: “Saio do trabalho, ei/Volto para casa, ei/Não lembro de canseira maior/Em tudo é o mesmo suor”.
.png)
.jpg)
